Seja na visão de filósofos, psicólogos ou religiosos, saber perdoar é o primeiro passo para reconstruir o futuro. Que tal conhecer a história de quem já aprendeu isso na pele e refletir sobre a bagagem que você mesma anda carregando? Vá em frente
Texto • Paula Bianca de Oliveira / Ilustrações • Zuleika Iamashita

Aos 28 anos de idade, Priscila tinha uma vida bastante tranquila. Trabalhava como bibliotecária, namorava, cultivava alguns amigos, passeava com seu cachorro no final do dia... Porém, ela notava uma certa monotonia – não tinha mais objetivos, nada mais lhe dava prazer, tudo era insosso e fastidiosamente uniforme. Ela já não se motivava para nada e o pouco que fazia era mecanicamente. Na época, ela chegou a pensar que essa postura negativa tivesse algo de importante a revelar, mas mesmo assim, a própria importância disso não a interessava. Depois de algum tempo, incomodada, ela decidiu procurar um psicólogo.
“Eu não posso ser feliz” – foi a primeira frase que Priscila disse, logo na primeira sessão. Em poucas semanas, seu terapeuta percebeu que isso não significava apenas um “eu não consigo ser feliz”, mas sim um “eu não tenho o direito de ser feliz”. Ao longo do tratamento, ela descrevia sua vida sempre em um tom monótono e sem emoção. Até que, em um determinado momento, Priscila esboçou timidamente uma tristeza ao mencionar um aborto, praticado anos atrás, quando ela tinha 20 anos.
“Ela namorava um rapaz da sua idade, e alegou que não tinham condições de ter um filho. Mas, depois do aborto, ela passou a se sentir como uma criminosa. Mesmo decidindo que o melhor seria fazê-lo, ela mantinha o pensamento fixo de que estava matando um ser humano”, comenta Ari Rehfeld, psicoterapeuta e supervisor da Clínica de Psicologia da PUC-SP. Em algumas sessões, trabalhou-se com a figura de quem seria a criança que ela matou: um menino idealizado durante um sonho, que aparece pedindo o seu colo. Assim, para que ela enfrentasse a situação, o psicoterapeuta propôs um diálogo entre ela e a criança. “Por que você não me deixa em paz? Vai embora! Por sua causa eu não sou feliz”, dizia Priscila, enfaticamente neste diálogo imaginário.
Depois, o exercício terapêutico propôs que a paciente falasse como se fosse o garoto. Então, ela emudecia totalmente, ficava subitamente calma, o rosto sem expressão nenhuma. Algumas sessões depois, Priscila soltou uma frase, como se fosse a criança: “você me matou uma vez e está querendo me matar uma segunda. Você quer me tirar da sua memória”. Como mãe, ela percebeu que ainda havia algo a se fazer pela criança, que queria apenas ser cuidada e acolhida, e respondeu: “Eu não tinha alternativa, eu não podia, agora eu não consigo voltar pra trás. O que eu posso fazer por você?”.