O best-seller "Inteligência emocional" escancarou, na década de 90, a revolucionária tese de que inteligência é saber lidar com as próprias emoções e com as emoções dos outros. O texto a seguir foi retirado desta obra e exemplifica bem esta questão
Texto • Redação

Como é comum em crianças de cinco anos que têm irmãos mais novos, Len perdeu a paciência com Jay, de dois anos e meio, que desarrumou os blocos de Lego com os quais estavam brincando. Enraivecido, Len morde Jay, que cai no choro. A mãe, ouvindo o grito de dor de Jay, acorre e censura Len, ordenando-lhe que guarde o que deu motivo à briga, os blocos de Lego. Diante dessa ordem – que seguramente soa a uma crassa injustiça –, Len começa a chorar. Ainda irritada, a mãe recusa-se a consolá-lo.
Mas Len é reconfortado por quem menos esperava: Jay, que, embora sendo o ofendido, agora está tão preocupado com as lágrimas do irmão que faz o maior esforço para acalmá-lo. O diálogo é mais ou menos assim:
– Chora não, Len – implora Jay. – Chora não, cara. Chora não.
Mas Len continua chorando. Como seu apelo não funciona, Jay se dirige à mãe em favor do irmão:
– Len chorando, mãe! Len chorando. Olha. Eu mostra a você. Len chorando.
E, então, voltando-se para Len, Jay adota uma atitude maternal, fazendo afagos no irmão e tranquilizando-o com palavras ternas.
– Olha, Len. Chora mais não.
Continuam os soluços de Len, apesar da tentativa de reconforto. Então, Jay muda de tática, ajudando a guardar os blocos de Lego na sacola, e diz, num tom amistoso:
– Ah, Len. Guardo pra Lenizinho, tá?
Mesmo assim, as lágrimas continuam. O sempre engenhoso Jay lança mão de outra estratégia: distrair o irmão.
Mostrando ao irmão um carrinho de brinquedo, tenta desviar a atenção dele da tragédia que está vivendo.
– Tem um homem aqui dentro. Quer ver, Len? Quer ver, Len?
Len não dá a mínima. Está inconsolável; não pára de chorar. A mãe perde a paciência e recorre à clássica ameaça:
– Tá querendo apanhar?
Len, com voz trêmula, responde:
– Não.
– Então faça o favor de parar – diz a mãe com firmeza, embora um tanto exasperada.
Em meio a soluços, Len consegue esboçar um patético e arquejante:
– Estou tentando.
Isso faz com que Jay utilize um último estratagema: assumindo a firmeza e a voz autoritária da mãe, ameaça:
– Chora não, Len. Assim leva palmada!