Marina Villas Bôas, uma mulher que desbravou sertões e preconceitos para ir atrás do que acreditava. Em sua atitude, alguns ensinamentos sobre coragem e simplicidade
Texto • Isis Gabriel

Falar de Marina Villas Bôas apenas como a companheira de um dos mais importantes brasileiros do século 20 é pouco e, no mínimo, injusto. Marina é daquelas mulheres corajosas e fortes, mas que nunca levantam a voz ou perdem a doçura. Nascida em Borborema, interior de São Paulo, filha de carpinteiro e de dona de casa, ela marcou a História do Brasil ao lado de seu marido, o sertanista Orlando Villas Bôas, morto em 2002.
Enfermeira, com apenas 24 anos encarou sozinha a aventura de trabalhar no recém-criado Parque Nacional do Xingu. Foi lá que conheceu o pai de seus dois filhos, Orlando e Noel, e ajudou a controlar epidemias de malária, gripe e leishmaniose, que matavam milhares de indígenas. Tornou-se a mãe branca e querida de gerações de xinguanos. Nesta conversa, Marina, 68, relembra alguns dos muitos momentos marcantes de sua vida e, verdadeira inspiração de coragem, mostra que está longe de ser a coadjuvante de qualquer história.
Eu era enfermeira e trabalhava com um amigo do Orlando, o Dr. Murilo Vilela. Quando foi criado o Parque Nacional do Xingu, o Orlando pediu ao Murilo que arranjasse uma enfermeira para os índios. Aí ele sugeriu o meu nome.
Aceitei, mas disse que ficaria uma semana para conhecer o local e ver se eu gostava, para só depois combinarmos meu futuro.
Não, porque eu morava sozinha aqui em São Paulo, minha família já tinha voltado a morar no interior. Eu sempre fui muito independente, não consultei ninguém para ver se podia ou não. Fui sozinha, só eu de mulher.
Não dá para pensar. O Brasil era outro. Foi uma aventura, uma coisa diferente, que quando você está dentro, não pára para pensar se é certa ou errada. As novidades são tantas e tudo é tão diferente que você só vai registrando as novidades, sem analisar.
Quando vi os índios, pensei “deve ser o paraíso aqui”. Senti uma tranquilidade, uma sensação de paz enorme. Estava acostumada com São Paulo, a correr para cima e para baixo, tudo com horário e, de repente, eu estava ali naquela calmaria, com aquele povo sossegado, andando devagar, falando calmamente, sem compromisso... Ah, minha filha [risos], acho que é a mesma sensação de estar no céu.