Dando atenção a si mesmo e tendo coragem para encarar o passado é possível resolver um problema que pode ter origem na infância e passar despercebido na vida adulta: a repetição inconsciente de comportamentos negativos
Texto • Redação
Um menino de 12 anos prometeu para si mesmo que nunca faria o que seu pai fez: abandonar esposa e filhos. Porém, 30 anos depois, o mesmo garoto – agora um homem – deixa sua família. Uma mulher que terminou um relacionamento destrutivo está agora apaixonada por um homem com as mesmas características de seu ex-namorado. E um advogado que nunca conseguiu agradar o próprio pai tem um chefe que acredita que elogiar não é produtivo. Soa familiar? Pode não ser o seu caso propriamente dito, mas algum deles certamente se encaixa, ao menos, na história de alguém conhecido. Esses são alguns dos comportamentos repetitivos com os quais o psicólogo Stanley Rosner se deparou ao longo de sua trajetória profissional. No livro O ciclo da auto-sabotagem, ele oferece uma análise esclarecedora sobre a compulsão por repetição – a tendência de reproduzir atitudes destrutivas. Para resolver esse problema, comum à maioria das pessoas, a resposta é autoconhecimento. Acompanhe, a seguir, um trecho da obra.
Muitos de nós gostam de criar, experimentar, viajar, aprender, crescer (...) Mas existem pessoas que além de não conseguir enfrentar esses desafios e aventuras, são incapazes até de imaginar tal coisa. Esses indivíduos agarram-se à crença de que a única maneira realmente boa e correta de levar a vida é seguir precisamente os passos de outrem – frequentemente dos pais.
A menininha que se equilibrava nos sapatos de salto da mãe, por exemplo, cresce para se tornar uma adulta que forçosamente usará o mesmo tipo de sapato. Nesse contexto, é comum adquirirmos traumas que nos influenciarão por toda a vida adulta, impedindo que tenhamos controle sobre certos aspectos do cotidiano. Quando não podemos obter o controle, às vezes reprimimos ou enterramos nossos sentimentos e memórias. Tal repressão é uma forma de nos proteger de experiências que perturbam nosso equilíbrio emocional, experiências tão ruins que não conseguimos sequer mantê-las na consciência.
Como esses conflitos são resolvidos? A resposta é “com dificuldade”. Sintonizar memórias e sentimentos dolorosos, reprimidos há muito tempo, gera medo e ansiedade do que virá à tona e do efeito disso. Depois de muitos anos protegendo-nos de nossos sentimentos, é assustador vivenciá-los; é como se o indivíduo ficasse desamparado pelo mundo.
Aí está o obstáculo. Vivemos com nossa capa de proteção e nos deixamos levar pelos movimentos da vida. Conseguimos empregos, fazemos nosso trabalho, nos casamos e temos filhos. Por que incitar a fera que está escondida? Por que não evitá-la e abandonar tudo? Divorciar-se, largar o emprego, abandonar as crianças, e justificar tudo isso como má oportunidade, um chefe estúpido, uma esposa traiçoeira, crianças ingratas. É mais fácil seguir em frente, apesar das consequências reais, do que mergulhar na causa das tensões, frustrações e decepções.
Então, nos defendemos reprimindo as memórias e os sentimentos que as acompanham. Desse modo, acreditamos que os esquecemos. Mas não conseguimos, pois tais sentimentos deflagram a raiva e desejos de vingança, ou depressão e pensamentos distorcidos. Será que esses sentimentos vão-se com tanta facilidade? É claro que não.
Ter consciência do próprio comportamento de autossabotagem é o primeiro passo para resolver essa situação. Mas encarar os resultados desse comportamento também é essencial. O insight não é apenas o reconhecimento de que sintomas incômodos estão causando problemas, mas que tais sintomas têm uma causa – afinal, nada acontece por acaso.
Depois, vem o trabalho de consternação, essencial para solucionar os padrões de autossabotagem. A consternação significa o reconhecimento – a admissão – dos relacionamentos perdidos e sabotados. Significa admitir o próprio comportamento autodestrutivo, o que poderia ter sido e nunca foi, vivenciar a mágoa e a dor da decepção, da desconsideração, e o medo da perda à custa da própria felicidade. Significa deixar para trás a bagagem do passado.
No entanto, o passado não deve ser negado. Deve ser encarado como parte da experiência de vida do indivíduo. O domínio do passado permite que o indivíduo se mova em direção ao futuro, que não espere que o cônjuge, o chefe, o filho compense na vida adulta aquilo que não recebemos na infância. Alcançar a compreensão do que estivemos fazendo por tanto tempo, estabelecer as conexões com nossos sentimentos e encará-los não é algo fácil ou rápido. Pode ser devastador perceber que passamos a vida inteira assim.
O que mais contribui para a solução? Enquanto negarmos nossa participação nos problemas e não admitirmos francamente nossa contribuição, o ciclo vai continuar. A tendência de negar e de não reconhecer nossa responsabilidade, de rejeitá-la, é muito difundida, e por que não? É difícil encarar que sou eu que procuro a agressão, que sou eu que boicoto meus relacionamentos, que sou eu o responsável pelas dificuldades que continuo enfrentando com chefes, cônjuges e com os filhos. Esse “pertencimento” significa assumir a responsabilidade pela situação em que você se encontra. Só assim dá-se o primeiro passo à frente, rumo à liberdade.
