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O zazen e a sabedoria da coruja

Publicado por Redação em 20/10/2010 às 16h29

Era uma ave pequena, de uns 20 centímetros de altura e talvez quarenta de envergadura. Entrou à noite na sala de zazen e se empoleirou no altar...

Texto • Monja Coen

As pessoas haviam ido para o zazen de iniciantes. Sentavam-se caladas e imóveis, de face para uma parede clara, ouvindo os sons internos e externos, transcendendo o comum e o sagrado, indo além do pensar e do não-pensar, procurando alcançar a sabedoria completa – aquele saber-conhecer-perceber profundo que nos coloca face a face com a Verdade.

Contato direto com a realidade real. Indo além de conceitos e de preconceitos. Antes do pensar se iniciar, antes da dualidade se criar. Antes do dividir e escolher. Antes do separar e julgar. Antes... Quando tudo apenas é. E nesse ser, percebe-se o interser. Inter-relacionamentos perfeitos e sincrônicos na grande sinfonia do universo. Nós tão pequenos humanos. Tão sonhadores de uma grandeza à qual não alcançamos.

Lembrei-me, então, do planeta Marte, vermelho e brilhante, que deixou nosso céu mais vasto e nos fez pensar em marcianos. Na minha infância, os marcianos eram verdes e a vida em Marte, uma fascinação. Discos voadores, objetos voadores não-identificados... Até pensei ter visto algo assim de relance, na curva do prédio. Mas era apenas a ponta do dirigível sobrevoando a cidade. Dirigíveis são lindos.

Será que somos dirigíveis? Quero dizer, será que podemos dirigir a nós mesmos? Ter acesso à central de controle de nossas vidas? Guiar a nós mesmos? Ou será que somos dirigidos por alguém mais? Será que somos controlados por radares espaciais? Será que as propagandas, revistas, televisões, modas e padrões determinam nossas opções? Essas e outras questões podem surgir nos momentos em que estamos sentados, quietos, imóveis, sedentos do encontro com o mais sagrado, como naquele momento, ali na sala de zazen, onde a pequena coruja nos espreitava.

Conseguimos penetrar a origem da mente, a origem do ser, a origem da vida, aquilo que não nasce nem morre, que apenas se revolve, transmuta e reforma incessantemente.

A coruja marrom-acinzentada, de olhos grandes e bico pequeno, estava empoleirada no canto do altar. De repente, voou baixo, perto das cabeças das pessoas entregues em zazen e, desorientada, bateu a cabeça no vidro da porta. Baratinada, voou para o outro lado. Bateu na parede e se sentou com os olhos semicerrados – será que meditava procurando o sagrado?

Meditar é um verbo que, às vezes, requer um objeto – meditar sobre a vida, sobre as obras do Senhor, sobre suas ações. Mas ele também pode ser um verbo intransitivo, que se encerra, que dispensa complementos – meditar no sentido de refletir, sem objeto, sem objetivo, sem nada. A qual meditação se entregava a ave perdida na sala encontrada?

Nós, humanos, nos regozijamos ao ver a ave, pois a coruja simboliza a grande sabedoria. Sabedoria essa que ali na sala poderia estar. Teria ela, a sabedoria, vindo nos visitar? Olhos enormes que enxergam no escuro. Que tesouro poder tudo ver, compreender. Adeus aos rancores e tantos temores. Sabedoria brilhante, irradiante!

Os meditadores se levantaram e foram embora alegres com o bom presságio. Fiquei encantada e preocupada em como lidar com a coruja na sala. Escurecemos o ambiente, deixando a luz de fora acesa para que ela encontrasse o caminho da volta. Volta para onde? De onde viera a coruja tão pequena e tão bela? Teria fugido de alguma morada? Teria um ninho, uma árvore, uma casa? Seria sem-teto? E o céu, não é nada? Depois de alguns instantes, ela voou. Tão lindo vê-la de asas abertas. Obrigada, amiga, por sua visita.

“Qual o objetivo do zen?” – me pergunta alguém. Encontrar o sagrado secreto.

 

O que é o zazen

Literalmente, significa “sentar zen”. Zen é uma palavra que vem do sânscrito dhyana ou jhana e significa um estado meditativo profundo. Segundo o zen-budismo, a Verdade transcende a expressão da linguagem, e só pode ser alcançada por meio da prática do zazen. Para elevar a mente, os zen-budistas ficam em meditação silenciosa, sentados na posição “agura”, com o pé esquerdo apoiado sobre a coxa direita. A mão direita fica sobre o pé esquerdo, com a palma para cima. Por cima dela, é estendida a mão direita.

 

Monja Coen é missionária oficial da tradição Soto Shu – Zen Budismo com sede no Japão e é a primaz fundadora da Comunidade Zen Budista do Brasil, criada em 2001, com sede em São Paulo.
 

 
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anamaria da graca tarradt vilela comentou às 01h06 em 06/04/2011 responder denunciar

amei, pois sou iniciante de yoga e tudo esta melhorando em min saude mais disposição eos mantras quero aprender para poder vivencialos no meu dia dia namaste.

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