Mergulhe nessa sutil arte: mais do que uma técnica de pintura, um caminho milenar para o equilíbrio e a paz interior. Prova de que, para meditar, nem sempre é preciso estar de olhos fechados
Texto • Analice Bonatto
O pincel é erguido perpendicularmente ao washi (papel de arroz), enquanto a mão do artista desliza em pinceladas precisas e definitivas. Os dedos permanecem imóveis e o braço se movimenta de forma ritmada, sem se apoiar na mesa de trabalho. A descrição não se encaixa muito nos conceitos de meditação com os quais estamos acostumados, não é? Quando meditamos, sentados na posição de lótus, nossa atenção está focada totalmente na respiração e no reconhecimento de nosso corpo. No sumiê, ao contrário, ela volta-se para a ação: o artista torna-se a pintura.
Ao observarmos um trabalho de sumiê (“sumi”, tinta e “e”, pintura), podemos notar, na economia de suas pinceladas, certa semelhança com os pequenos poemas japoneses conhecidos como haicais. Esse tipo de arte, originária do Extremo Oriente, é feita em preto-e-branco e produz lindas imagens. O artista usa tinta preta preparada à base de carvão vegetal para fazer o desenho sobre um papel fino e absorvente, como o papel de arroz. Em pinceladas rápidas e espontâneas, faz o registro de algo que é fugaz, passageiro.
“O sumiê é uma arte influenciada pelo espírito zen, cujas formas pictóricas são executadas com uma grande economia de meios. Assim, com poucos traços, é possível captar a essência do objeto abordado”, explica a artista plástica Susan Hirata, exímia nesta arte milenar.
Inspirado na pintura monocromática chinesa da dinastia Song do Sul, o sumiê floresceu no Japão do século 12, à medida que crescia a importância do zen budismo. “Sob o ponto de vista prático, essa busca do que é essencial na pintura se traduziu na economia de pinceladas. Por exemplo, se vou pintar um rosto, em dois ou três traços consigo a expressão da pessoa. No teatro nô, gênero muito conhecido no Ocidente e que influenciou muitos artistas, também é clara esta influência, pois tudo o que é secundário é descartado”, diz Susan.
Podemos dizer que o sumiê é um caminho que nos desperta para a naturalidade da vida. E, em um mundo tecnológico como o nosso, pode ser uma forma poderosa para silenciar a mente e exercitar a concentração. Antes de iniciar a pintura, há um singelo e sutil ritual para o preparo da tinta que proporciona momentos de paz e de contemplação. Assim, enquanto o carvão vegetal é moído na pedra chinesa, em movimentos suaves na forma de oito, a mente se aquieta.

Aprender o processo de pintura com um pincel de sumiê é difícil e há muitas técnicas de movimento. Em traços ágeis, o artista nos revela imagens produzidas de pinceladas certeiras e definitivas. O trabalho pede muita atenção, pois a tinta não pode ser removida do papel. “A maior dificuldade é o manuseio do pincel. É preciso perseverança e paciência para aprender as técnicas”, explica outra especialista no assunto, a artista plástica Suely Shiba.
Quando Suely tem de desenvolver um tema que nunca fez, estuda os tipos de pinceladas para conseguir obter aquele desenho específico. Para ela, essa é uma arte muito sutil. “As pessoas que querem praticá-la devem prestar atenção em seu interior, pois, sem essa ligação, perde-se o momento característico do ser zen”, diz.
A arte sumiê possui alguns temas recorrentes. Os mais importantes são os quatros nobres, ou shikunshi, em japonês. São eles: o bambu, a orquídea japonesa, o crisântemo e a ameixeira. Há ainda outros temas tradicionais, como o pinheiro japonês, a camélia japonesa, o peixe e o pássaro. Susan Hirata conta que a ameixeira simboliza coragem, pois floresce mesmo no rigoroso inverno japonês, anunciando a primavera. Já o bambu é uma planta peculiar por ter o caule oco. “No Ocidente, a palavra oco é negativa, mas, no Oriente, é associada a uma condição mental a ser almejada, ou seja, busca-se estar vazio de pensamento como o bambu”, ensina.
No Brasil, o sumiê ainda é pouco conhecido e praticado, se comparado às artes marciais japonesas, tão populares entre nós. Mas, se levada em conta a pouca divulgação atual da técnica, as especialistas são otimistas. De acordo com elas, muitos brasileiros têm interesse em aprender a arte por meio dos cursos oferecidos, e os temas ainda pouco explorados atraem os artistas contemporâneos, interessados tanto na estética dos trabalhos como no poder de relaxamento que sua produção traz.