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Filosofia no cinema: ficção ou reflexão?

Publicado por Redação em 07/10/2010 às 17h14

Ao se aproximar de temas filosóficos, o cinema traz substância e conteúdo à sua vocação de entretenimento. Conheça algumas obras que estimulam o espectador a penetrar na linha de raciocínio dos grandes pensadores

Texto • Ricardo Garro
 

Em um posto de gasolina, um homem atira uma moeda para o alto; a face em que a moeda cair definirá a vida ou a morte de uma outra pessoa. Diante desta descrição, você pode até pensar que tal acontecimento só poderia ser levado a cabo por um psicopata. Mas o que dizer quando se sabe que, para esse homem, o raciocínio por trás da ação segue uma lógica rigorosa e inflexível? Que, dentro de sua lógica, regras invisíveis ditadas pelo destino – e não por uma escolha individual – são responsáveis pela morte de sua vítima?

Pode soar absurdo, mas assim como este homem se deixa guiar pela crença de que há algo predeterminado para as vidas em questão, tantas outras pessoas agem baseadas no mesmo princípio. Portanto, seria possível afirmar que há algo em comum entre ele e uma parcela considerável da sociedade?

Pois é, caro leitor, esta reflexão um tanto quanto complexa – e, por que não, filosófica – foi proposta com base em uma cena extraída do filme Onde os Fracos Não Têm Vez (No Country for Old Man, 2007), dirigido pelos irmãos Joel e Ethan Coen e vencedor do Oscar de Melhor Filme em 2008.

O longa-metragem traz a história de um homem, interpretado por Josh Brolin, que, após se apropriar de uma bolsa com dinheiro, é perseguido por assassinos e por um policial que tenta evitar que ele seja morto. O jogo da moeda ou mesmo a lógica que orienta o assassino, interpretado por Javier Bardem, certamente seriam contestados por Jean-Paul Sartre (1905-1980). Segundo o filósofo francês, o ser humano está condenado à liberdade, o que significa dizer que cada pessoa pode, a cada momento, escolher o que fará de sua vida, sem que haja um destino previamente concebido.

Mas este é apenas um exemplo que denota a maneira como o cinema se apropria ou reinventa reflexões propostas pela filosofia. A sétima arte está cheia de obras que permitem esta análise, e talvez o filme que melhor tenha utilizado comercialmente o potencial das concepções filosóficas seja Matrix (The Matrix, 1999), cujo roteiro parece todo se encaixar dentro da alegoria da Caverna de Platão.

De acordo com o coordenador do curso de filosofia da PUC (Pontifícia Universidade Católica) de Minas Gerais, professor Sérgio Murilo Rodrigues, a relação de Matrix com o mito da caverna é clara. Na alegoria de Platão, filósofo grego do século 5 a.C., as pessoas ficam acorrentadas em uma caverna, de costas para a entrada, e só tomam conhecimento do que se passa lá fora por meio de sombras projetadas na parede do fundo da caverna. Elas julgavam que essas sombras eram a realidade até que, um dia, um desses prisioneiros consegue se libertar e descobre que há um outro mundo lá fora. Quando este homem chama os demais para sair da caverna, eles não acreditam no que é descrito e preferem ficar onde estão. Alegoricamente, o mito da caverna exemplifica a maneira como podemos nos libertar da condição de escuridão que nos aprisiona por meio da luz da verdade.

A cena em que Neo, interpretado por Keanu Reeves, tem de escolher entre as pílulas azul ou vermelha corresponde ao momento no qual ele decidirá se quer ou não “sair da caverna” que, no filme, é representada pelo mundo da Matrix, o programa de computador que simula a realidade. A azul o faria acordar em sua cama imaginando que tudo não passou de um sonho, enquanto a vermelha revelaria a verdade. Neo escolhe conhecer a si mesmo e à dura realidade. “Assim, o filme atualiza a ideia platônica. A caverna da Matrix é agradável e prazerosa. É pelo prazer que somos dominados. Por isso, o caminho de Neo será especialmente doloroso. Ele é acordado de seu sono alienante, abre os olhos e reclama da dor”, afirma Rodrigues. Com bastante sucesso, Matrix utilizou uma alegoria criada há mais de 2 mil anos para criar um paralelo que faz sentido com o imaginário do homem contemporâneo.

 

O que os olhos vêem, a cabeça assimila

Conheça outros filmes com grande potencial para estimular a reflexão filosófica.
 

Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, 1971)

Em uma época futura, o líder de uma gangue de delinqüentes é preso e usado como cobaia em um experimento para frear os impulsos destrutivos. Assim, o personagem não consegue mais se defender quando é agredido, perdendo seu instinto de defesa. O filme traz à tona o conceito de “corpo dócil”, do filósofo francês Michel Foucault (1926-1984), para quem as ciências humanas são capazes de instituir uma nova forma de ser humano, condicionando e forçando os indivíduos a serem de um certo jeito. Por isso, tal qual acontece com o protagonista de Laranja Mecânica, todos nós, quando submetidos à força da ciência e da razão, seríamos forçados a agir da maneira como a sociedade julga correta.

 

V de Vingança (V for Vendetta, 2006)

No longa-metragem baseado na HQ de Alan Moore, uma jovem é salva por um homem mascarado que lidera uma revolução para trazer justiça e liberdade a uma Inglaterra totalitária. Porém, este homem faz com que a jovem passe por várias privações e sofrimentos até que aceite os valores que considera verdadeiramente necessários. Aparentemente, o mascarado conhecia a linha de raciocínio defendida por Hegel (1770-1831), que afirmava que a transformação efetiva só ocorre em alguém quando existe a consciência plena, e, para que isso aconteça, é necessário que a pessoa enfrente dor e sofrimento. Para o filósofo alemão, é assim que verdadeiramente aprendemos.

 

Edukators (Die Fetten Jahre Sind Vorbei, 2004)

Três jovens decidem invadir casas e, sem levar qualquer bem material do interior das residências, mudam a mobília de lugar para demonstrar aos proprietários que toda a segurança luxuosa de que desfrutam é ilusória. De acordo com Rodrigues, os jovens lembram o filósofo francês Albert Camus (1913-1960), que afirma que diante do absurdo de uma existência sem sentido só nos resta a revolta. O professor estabelece ainda outro paralelo: “A educação à qual o título faz referência não é uma educação transformadora, mas apenas esclarecedora: só podemos criticar ou explicitar o estado de coisas em que vivemos, mas não transformá-lo, idéias defendidas pelo filósofo alemão Theodor Adorno (1903-1969)”, explica.
 

 
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