Descubra o que há de realmente inovador na obra-prima de Orson Welles e o que ela representa para o mundo do cinema
Texto • Thiago Perin
Ângulos fora do comumAo longo do filme, as lentes com frequência miram objetos e pessoas de cima para baixo ou de baixo para cima, dando a ilusão de grandeza ou de diminuição proporcional às imagens. Dessa forma, Orson Welles foi o primeiro diretor a mostrar o teto do cenário em um filme de Hollywood.
Concentrações de grandes multidões e cenas do majestoso palácio de Xanadu foram filmadas a partir de miniaturas, fazendo o filme parecer muito mais caro do que realmente foi. Outra técnica inovadora veio com a maquiagem criada por Maurice Seiderman, que envelheceu o elenco em várias décadas no decorrer da história.
Cidadão Kane empregou em quase todas as cenas uma técnica de filmagem – desenvolvida a partir de infindáveis experimentos com lentes e luzes – chamada “deep focus”, que deixa todos os planos da imagem com foco bem definido ao mesmo tempo, dando uma noção intensa de profundidade.
Welles levou para Hollywood uma série de práticas típicas do rádio, como a de fazer colagens com diversas vozes proferindo trechos de uma mesma frase. Com uma edição rápida e sequencial, pedaço a pedaço, o resultado dava a impressão de que toda uma cidade estava falando sobre o mesmo assunto.
Muito utilizada desde então, a técnica de preceder o visual com o áudio entre uma cena e outra (quando uma cena termina, o áudio passa para a próxima antes da imagem) foi utilizada pela primeira vez em Cidadão Kane.
Em vários momentos do filme, os sons são utilizados para dar o tom da cena. Após Kane dar um tapa no rosto de Susan, por exemplo, os dois personagens olham silenciosamente um para o outro – de fundo, ouve-se a risada histérica de uma mulher, provavelmente uma vizinha. Neste caso, o prazer da risada ajuda a pintar um quadro grotesco da infelicidade do casal. Em outros pontos da narrativa, Welles utilizou técnicas de reverberação e eco para criar atmosferas gélidas e cheias de mistério.