Em 1961, ele se aventurou atrás das câmeras – mas o processo não foi nada tranquilo. Descubra, a seguir, os segredos por trás do primeiro e único filme dirigido pelo grande astro do cinema, "A face oculta"
Texto • Redação
Não há como negar que Marlon Brando tinha talento para o ofício. Afinal, A face oculta foi um sucesso de bilheteria e recebeu uma indicação ao Oscar na categoria de Melhor Fotografia. Mas quem acompanhou os bastidores da produção garante que nem tudo foi perfeito na estreia do astro como diretor.
Segundo relatos da equipe, ele (que também é o protagonista do filme, um assaltante de banco que sonha em se vingar de seu ex-parceiro traidor) chegava a gastar diversas diárias de 50 mil dólares enquanto esperava ondas perfeitas para gravar suas cenas na praia. E era capaz de sair distribuindo presentes de 200 dólares para os figurantes que reagissem com mais realismo em uma determinada cena.
O resultado, como era de se esperar, foi um rombo de mais de 6 milhões de dólares no orçamento, uma quantia muito além dos padrões da época.
A inexperiência de Brando também chamou a atenção por ele ter rodado seis vezes mais material de fotografia do que geralmente é usado em um filme com a mesma duração de A face oculta (141 min.). Além disso, ele enfrentou problemas na edição da obra: sua primeira versão tinha aproximadamente cinco horas de duração.
Em função da indecisão do diretor e da grande demora para editar e entregar o filme pronto, a Paramount (estúdio que distribuiu o filme na época) tirou o projeto das mãos de Brando e reeditou o material à sua própria maneira.
Uma experiência únicaNão é de se espantar que, depois do episódio, nenhum estúdio tenha topado dar carta branca a Marlon Brando novamente. Mas este não foi o único motivo que o levou a encerrar sua carreira como diretor. Na verdade, o próprio Brando nunca mais se interessaria em enfrentar o desafio. 14 anos após o lançamento do filme, o ator declararia, em uma entrevista à revista Rolling Stone, que nunca teve a menor intenção de repetir sua experiência como diretor: “você trabalha até morrer, é o primeiro a acordar, improvisa e sua cabeça parece que vai explodir. A sensação era a de que eu era uma prostituta velha, que já tinha trabalhado tanto, que não conseguia mais nem pensar”.
Apesar de tantas turbulências, os críticos de cinema e apaixonados por faroeste afirmam que os méritos da película não podem ser ofuscados por intrigas de bastidores. Apesar da inexperiência de Brando, o resultado final de A face oculta é um western repleto de ação e aventura, com um protagonista de rara complexidade psicológica em filmes desse gênero e deslumbrantes imagens de grande contraste.
Inicialmente, A face oculta seria dirigido por Stanley Kubrick (2001: uma odisséia no espaço e Laranja mecânica). No entanto, um atrito com o próprio Brando – que já havia sido escalado para o papel principal – afastou Kubrick do projeto.

Título original: One-Eyed Jacks
Gênero: faroeste
Duração: 141 minutos
Ano de lançamento (EUA): 1961
Estúdio: Paramount Pictures / Pennebaker Productions
Direção: Marlon Brando
Roteiro: Guy Trosper e Calder Willingham (baseado em livro de Charles Neider)
Produção: Frank P. Rosenberg
Trilha sonora: Hugo Friedhofer
Marlon Brando (Rio), Karl Malden (Xerife Dad Longworth), Katy Jurado (Maria Longworth), Pina Pellicer (Louisa), Ben Johnson (Bob Amory), Slim Pickens (Deputado Lon Dedrick) e Larry Duran (Chico Modesto).