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O que é essa tal de metafísica

Publicado por Redação em 10/11/2010 às 13h49

Da alegoria da caverna à intrigante Matrix, a viagem no tempo a seguir ajuda a entender essa enigmática área do conhecimento filosófico. Embarque já!

Texto • Carine Portela



Está aí um ramo da filosofia injustiçado pela História. Tanta gente já confundiu seu significado, relacionando-o a assuntos sobrenaturais, que metafísica acabou virando sinônimo de papo de bicho-grilo. Mas, apesar de ser repleta de charadas que desafiam o senso comum, essa vertente filosófica é bem mais pé-no-chão do que parece: seu verdadeiro objetivo é responder a questões fundamentais sobre a natureza da realidade. O que de fato existe? Vivemos em um mundo concreto ou somos enganados por ilusões da mente? Essas são apenas algumas das dúvidas levantadas por essa vertente filosófica ao longo dos séculos, como você confere a seguir.

 

“A parte que ignoramos é muito maior que tudo quanto sabemos.” (Platão)

O primeiro a embarcar na viagem metafísica foi Platão (427-347 a.C.). Ele acreditava na existência de dois mundos: o verdadeiro, constituído por ideias (perfeitas, eternas e imutáveis) e aquele em que vivemos (onde estão apenas sombras, cópias malfeitas das ideias arquetípicas). Em outras palavras, Platão defendia que tudo o que tomamos por realidade não passa de ilusão. E afirmava ainda que cada um de nós possui uma alma imortal, que se origina no reino das ideias e retorna para lá depois da morte.

 

“Imagine homens numa morada subterrânea, desde a infância, presos pelas pernas e pelo pescoço.” (Platão)

A famosa alegoria da caverna de Platão ilustra sua teoria: suponha que há prisioneiros no fundo de uma caverna com uma única fresta. Eles estão acorrentados de forma que não podem virar a cabeça, e por isso, contemplam durante toda a vida apenas uma parede – em que sombras do mundo exterior são continuamente projetadas por uma fogueira que está logo atrás deles, porém fora de seu campo de visão. Não é difícil concluir que os condenados acreditam que essas projeções são a única realidade existente, não é mesmo? Pois, segundo Platão, somos como eles, prisioneiros ludibriados por nossos sentidos imperfeitos e, por isso, acorrentados ao mundo ilusório das aparências.

 

“Engano-me, logo existo.” (Agostinho)

Foi Agostinho de Hipona (354-430), também chamado de Santo Agostinho, quem inspirou Descartes a proferir seu famoso “penso, logo existo”, mais de mil anos depois. Foi ele também que uniu a metafísica de Platão ao pensamento cristão para lançar as bases da filosofia seguida até hoje pela Igreja Católica. Segundo ele, só Deus é real. O mundo espiritual (imaterial) está perto da realidade, por estar perto de Deus. No plano em que vivemos (material), só podemos vislumbrar a verdade quando exercitamos a fé, ou seja, quando nos aproximamos de Deus. 

 

“Sabores, cores e cheiros só existem no ser que sente.” (Galileu)

Galileu Galilei (1564-1642) também filosofou sobre questões metafísicas. Mas, afeito à Ciência, deixou religião e radicalismos de lado. Segundo ele, a maior ilusão do homem é tomar por real certas qualidades que só existem na nossa mente, como os sabores, as cores, os cheiros e os sons. Ele defendia, por exemplo, que um morango não é vermelho, mas sim “percebido como vermelho aos nossos olhos”. Segundo essa teoria, um morango que nasce na encosta de uma montanha e nunca é observado por ninguém, não tem cor alguma. Seguindo a mesma lógica, Galileu afirmava que quando uma árvore cai no meio de uma floresta, sem que ninguém testemunhe o ocorrido, ela não emite som – afinal, o som só existe na mente de quem ouve.

 

“As ideias sensoriais não existem apenas na mente, mas dependem da mente para existir.” (John Locke)

John Locke (1632-1704) criou uma versão sofisticada da metafísica de Galileu. Para ele, qualidades como os sabores, cores, cheiros e sons não são meras criações mentais, mas dependem da disposição de uma experiência mental para existir. Isso quer dizer que um morango é de fato vermelho mesmo que ele nunca tenha sido observado ele tiver a capacidade de produzir a percepção dessa cor quando visto por alguém. Por analogia, a árvore que cai no meio da floresta também produz som, embora o ruído só possa ser percebido se houver alguém ali.

 

“Eu estou sempre na floresta. E é por isso que a árvore continuará sempre existindo, já que observada por mim. Atenciosamente, Deus.” (Ronald Knox)

O versinho acima sintetiza as ideias do idealista George Berkeley (1685-1783). Além de ir mais longe do que Galileu e Locke, ao afirmar que até mesmo os objetos físicos dependem da mente para existir, Berkeley colocou em primeiro plano a influência de Deus em nossa realidade. Para ele, o morango ou a árvore que usamos nos exemplos anteriores nada mais são do que as ideias que temos ao observá-los – e, portanto, não existem quando inobservados. Quando perguntado se os objetos desaparecem quando não há ninguém de olho, Berkeley pondera: “não, porque Deus os observa o tempo todo”.

 

“A metafísica é um oceano escuro e profundo, sem costa ou farol, forrado de destroços filosóficos.” (Kant)

Mais preocupado com questões éticas e morais, Emmanuel Kant (1724-1804) propôs uma alternativa radical ao estudo da metafísica. Segundo ele, a verdadeira natureza das coisas (conceito que ele nomeia como “noumenal”) é, por essência, indecifrável. A consequência lógica desse pensamento é que o ato de se debater em enigmas metafísicos é completamente infrutífero.

 

“Está tudo em Platão, tudo em Platão... Caramba! Gostaria de saber o que essas crianças aprendem na escola! (professor Digory Kinke, personagem de C.S. Lewis, em As Crônicas de Nárnia Vol. VII – A Última Batalha)

Discípulo moderno de Platão, C.S. Lewis (1868-1963) buscou inspiração na teoria das ideias e na alegoria da caverna para escrever a série de sete livros de fantasia As Crônicas de Nárnia, entre 1949 e 1954 – da qual faz parte O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa. Assim como Platão, Lewis chama o nosso mundo de “Terra das Sombras”. O reino de Nárnia, por sua vez, representa o mundo real, onde vivem as ideias perfeitas. Ao longo da coleção, é possível encontrar diversas referências filosóficas.

 

“Já teve um sonho, que você tinha a certeza de que era real? E se você não conseguisse acordar desse sonho? Como saberia a diferença entre o sonho e o mundo real?” (Morpheus para Neo, no filme Matrix)

O mito platônico da caverna também inspirou outras famosas obras contemporâneas, como a trilogia Matrix, dirigida pelos irmãos Wachowski. Na série de filmes de ficção científica, os seres humanos vivem presos em tanques imersos em uma espécie de líquido amniótico e, o que acreditam ser a “vida”, não passa de uma realidade virtual criada por informações enviadas a seus cérebros por computadores. O filme de sucesso resgatou a antiga dúvida: podemos estar sendo vítimas de uma ilusão em escala global? A filosofia e, em especial, a metafísica, garante que essa é uma possibilidade real.
 

 
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carlos alberto comentou às 14h27 em 23/05/2014 responder denunciar

Voltei ao estudos para aprimorar meus conhecimentos , nunca havia estudado Filósofia , parece que agora ando mas perdido ainda por não conseguir ententer a máteria. Qual o tipo de ajuda vc's poderiam me dar??

Ex-Aluno do Curso de Filosofia da UMESP comentou às 21h06 em 25/12/2010 responder denunciar

A cada dia aumenta a necessidade das instituições cuidarem de sua imagem e natureza, mostrando-se éticas e capazes de responderem aos desafios de nossos tempos. Todas as instituições (empresas, igrejas, biológicas, do direito, etc) precisam ter profissionais formados para superar os limites do sistema econômico atual. Pensando nisso, que o curso de filosofia da Universidade Metodista de São Paulo, além de formar professores e professoras de filosofia, está formando filósofos e filósofas, capazes de atuar nas mais diversas áreas da sociedade, transformando as intituições e mostrando como é possível superar os limites impostos pelo modelo de sociedade atual, que está em crise. O curso está com inscrições para o vestibular abertas, aproveite!

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