Eles não são especialistas em filosofar, mas se inspiram nas palavras dos grandes pensadores para fazer literatura. A seguir, escritores contam para a gente como isso funciona
Texto • Daniel John Furuno
“Não sou daqueles escritores que não leem para não se deixarem influenciar. Leio pensadores como Baruch Spinoza (filósofo holandês, 1632-1677), Platão (filósofo grego, 428-347 a.C.), René Descartes (filósofo francês, 1596-1650), Arthur Schopenhauer (filósofo alemão, 1788-1860) e também autores que fazem a ponte entre a filosofia e a literatura, como G. K. Chesterton (escritor inglês, 1874-1936) e Friedrich Nietzsche (filósofo alemão, 1844-1900). Sempre tratei a filosofia com um respeito travesso, desobediente, pois ela própria lhe entusiasma a transgredir.
Geralmente, somos levados a fazer uma distinção entre sentir e pensar. Por exemplo, quando alguém está atraído por outra pessoa ou inicia um relacionamento, é comum ouvi-lo dizer que não quer ‘pensar demais’ e que prefere ‘deixar rolar’ – como se pensar não seduzisse. Para mim, é o contrário: acho o pensamento extremamente sedutor. Afinal, você não para de pensar em nenhum momento, nem quando está transando. Terminamos por tratar o pensar como algo não nobre, não intuitivo. Mas saber o que algo significa não mata sua significação. Da mesma forma, o poema é mais aquilo que não está escrito. Sua função é criar lacunas, assobiar a melodia para o leitor se lembrar da letra.
Não acho que a filosofia seja tão oposta à poesia como muitos acreditam. Ambas propõem não que você saia da sala, mas que mude de cadeira. Em ambas há a mesma inquietação de não aceitar tão facilmente as coisas que nos são passadas. O poeta é um filósofo preguiçoso.
No meu trabalho, a filosofia me ajuda na demolição do senso comum. No dia a dia, eu não conseguiria nem criar meus filhos sem filosofia, sem o processo terapêutico da pergunta, sem o espanto bom da infância”. (Foto: Renata Stoduto)