Há quem já nasce com a ideia em mente, quem se mata de estudar para isso, quem faz por hobby, sem grandes expectativas... Para todos os casos, a constatação é uma só: não é lá muito fácil viver de literatura
Texto • Thiago Perin

Antigamente, o desejo de viver de arte podia ser bastante mal-visto. Um filho chegar dizendo "pai, quero ser músico"? Provavelmente, motivo para uma boa discussão. E "pai, quero ser escritor" não tendia a ser muito melhor. Mas, com o tempo, a cultura popular foi mudando e, hoje, a profissão de escritor já consegue ser bem celebrada dentro de casa e fora dela. Aliás: "profissão de escritor"? Tem algo errado aí. No Brasil, escrever não é uma atividade reconhecida profissionalmente.
Em 2008, o deputado federal Antonio Carlos Pannunzio (PSDB-SP) lançou um projeto de lei que previa a regulamentação do ofício literário. Mas, apesar de ter sido aprovada na Comissão de Educação e Cultura da Câmara, a lei foi rejeitada na Comissão de Trabalho, sob a alegação de que “não existe uma profissão reconhecível de escritor”. E a coisa ficou por isso mesmo.
“Não tenho nenhuma dúvida ao afirmar que ainda somos olhados meio de soslaio pela sociedade brasileira”, disse, na crônica Uma profissão como outra qualquer, o escritor (e jornalista) Mário Prata. "Quando preencho alguma ficha (...) e no item profissão tasco 'escritor', todo mundo me olha meio de lado, provavelmente pensando: mas isso lá é profissão? Pior ainda é quando digo numa rodinha que escrevo, logo alguém pergunta: 'mas, para viver, faz o quê?'", conta, com bom-humor.
Mas por que isso? Talvez, seja um reflexo de não existir um curso universitário específico para escritores, o que faz com que os futuros literatos acabem optando por Letras ou Jornalismo – ambas formações que funcionam como “muletas”, alternativas de trabalho para as épocas em que a produção literária não dá o lucro necessário. Aliás, está aí outra realidade cruel: viver de literatura, financeiramente falando, é bem difícil por aqui.
"Difícil é pouco. É quase inviável", conta o escritor (também jornalista) Sérgio Rodrigues, autor de cinco livros publicados. No caso dele, a solução encontrada foi justamente revezar o jornalismo com a literatura. É uma das alternativas mais comuns. "Mas cada um precisa encontrar sua própria forma de driblar essa tendência ao não-profissionalismo do mercado”, diz o escritor. Outros caminhos próximos, nos quais caem muitos dos escritores em potencial, são as funções de revisor e tradutor.
Sérgio, que é formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), conta que tem uma rotina simples: fica diante do computador o dia inteiro, entre o café da manhã e o jantar. Nesse tempo, procura unir a literatura ao ofício que realmente paga as contas. “O escritor e o jornalista dividem esse tempo, mas, como consegui aproximar o trabalho dos dois (ele escreve, como jornalista, sobre literatura), muitas vezes fica difícil distinguir quem está no comando".