Aquele desejo extremo de emagrecer pode levar a dietas de segurança duvidável e até desencadear seríssimos transtornos alimentares. Cuidado: nesse processo, em vez de peso, só o que você perde é saúde!
Texto • Daniel John Furuno

O mito grego de Narciso – o belo e egoísta jovem que, após desprezar o amor de diversas donzelas, foi amaldiçoado pelos deuses e acabou enamorando-se de sua própria figura refletida numa fonte – é comumente associado à vaidade. No entanto, simboliza também a idealização do “eu”, a relação doentia com a própria imagem – algo cada vez mais frequente numa sociedade como a de hoje, que vive sob a ditadura da estética e de padrões de beleza tão rígidos quanto inatingíveis para a maioria de nós.
São poucas as pessoas que conseguem se olhar no espelho e ficar totalmente satisfeitas com o que encontram ali. Imaginar como seria bom perder alguns quilos e eliminar aquela barriga ou os “pneuzinhos” é algo perfeitamente natural e até saudável, na medida em que nos impele a melhorar nossos hábitos alimentares ou a começar a fazer exercícios físicos regularmente. O grande problema é que muitas vezes os limites do próprio corpo acabam sendo ignorados.
Muito mais do que a busca obsessiva pelos resultados, a raiz desse problema geralmente se encontra no próprio ponto de partida: o que a pessoa enxerga no espelho, a chamada autoimagem corporal. Distorções nessa autoimagem – que podem ser provocadas por uma infinidade de fatores, como questões afetivas, emocionais, familiares, sociais ou uma soma delas – acabam levando a transtornos alimentares graves, como a anorexia nervosa ou a bulimia.
São termos que têm se tornado cada vez mais populares. A novela “Páginas da Vida”, de Manoel Carlos, recentemente exibida em horário nobre pela Globo, aborda o problema da bulimia, através da personagem Giselle, interpretada pela atriz Rachel de Queiroz. Curiosamente, na vida real, a atriz Deborah Evelyn, que na trama vive a mãe da personagem, já sofreu de anorexia nervosa na adolescência.
Há algum tempo, a anorexia também esteve em pauta graças à polêmica lançada em uma Semana de Moda de Madri, na Espanha, quando foi anunciado um veto à participação de modelos com IMC abaixo do considerado saudável. O IMC, Índice de Massa Corporal, é calculado dividindo-se o peso do indivíduo por sua altura.
Em termos de polêmica, no entanto, a jornalista norte-americana Marya Hornbacher foi bem mais longe. Em seu livro Dissipada: memórias de uma anorética e bulímica, publicado originalmente em 1998 e lançado no Brasil pela Editora Record, ela torna públicos detalhes de sua biografia que poucos teriam coragem de contar, mesmo para os parentes mais próximos. Seu calvário rumo aos transtornos alimentares começou logo cedo, num claro exemplo do quanto a distorção na autoimagem pode se tornar um risco à saúde.