Eles nunca fizeram medicina e sempre tiveram de enfrentar um bocado de descrença. Ainda assim, seguiram em frente, certos de que carregavam uma missão. A seguir, breves perfis de dois ilustres médiuns curadores brasileiros: Zé Arigó e João de Deus
Texto • Redação
Congonhas, interior de Minas Gerais. Na conservadora década de 1950, um homem ganhou as capas dos jornais, estarreceu a classe médica e preocupou o governo ao começar a realizar, com sucesso, cirurgias – extirpando tumores, cistos ou lipomas – feitas com instrumentos rudimentares, como facas de cozinha e canivetes comuns. Isso sem assepsia, sem qualquer tipo de anestésico e, o mais intrigante, sem nunca ter estudado medicina.
José Pedro de Freitas, o Zé Arigó, tornou-se célebre e passou a receber uma quantidade imensa de doentes em sua porta, com as mais diversas enfermidades. Entre seus pacientes, além de fiéis de todas as partes do Brasil, políticos, jornalistas famosos e artistas de TV. E, embora ninguém até hoje tenha sido capaz de explicar cientificamente a eficiência de seu método, sintomas desapareciam, dores eram aliviadas e doenças evaporavam sem deixar rastros.
A capacidade curativa deve-se inteiramente a sua forte capacidade mediúnica, a qual, inicialmente, o fez pensar que estava ficando louco, mas permitiu que ele incorporasse, segundo defendia, o espírito de um médico alemão já falecido, identificado como Adolf Fritz (veja mais nas próximas páginas).
Sob a regência do espírito, Zé realizava rápidos procedimentos cirúrgicos – segundo as inúmeras testemunhas que o presenciaram em ação, sempre com incisões pequenas, que cicatrizavam perfeitamente e sem qualquer sinal de infecção. Além das cirurgias, o médium também fazia diagnósticos a olho nu (quase sempre corretos) e tratamentos sem cortes, nos quais regurgitava os maus espíritos.
Endeusado pelo povo de Congonhas, foi condenado duas vezes à prisão, em 1956 e 1962, por prática ilegal de medicina. Mesmo assim, manteve uma atitude positiva e continuou sua missão de cura, sob ameaças da polícia, até sua morte trágica, em 1971 – em um acidente de carro que ele mesmo chegou a prever.
Abadiânia, interior de Goiás. Um complexo de prédios conhecido como Casa de Dom Inácio de Loyola se destaca na paisagem empoeirada. Durante três dias na semana, filas imensas – compostas, em sua maioria, por estrangeiros – se formam para uma consulta com João Teixeira de Faria, o João de Deus. Uma a uma, as pessoas, sem precisar dizer o que têm, vão passando pelo médium e recebendo receitas escritas em uma letra ilegível, decodificada apenas pelos responsáveis pela venda dos remédios naturais do instituto – preparados com ervas e raízes.
Assim como Zé Arigó, João de Deus ganhou fama e despertou o interesse das multidões por conta de suas inexplicáveis capacidades curativas. Mas, diferentemente do mineiro, o goiano diz incorporar dezenas de espíritos, chamados por ele de sua “equipe espiritual”, que inclui Augusto de Almeida, Bezerra de Menezes e, também, o famoso doutor Adolf Fritz. Em transe, João de Deus performa cirurgias tradicionais – também com instrumentos rudimentares e sem assepsia – e rituais energéticos de cura espiritual, acabando com males como esclerose, paralisia, câncer, cefaleia, vertigem, dor abdominal e lombalgia, dentre muitos outros.
Segundo João, mais de 10 milhões de pessoas já foram atendidas por ele desde que sua missão foi iniciada. No entanto, não é prometida a cura a todos, já que esta dependeria da “vontade de Deus”, mais do que dos poderes do médium. Atraindo pessoas de todo o mundo, ele dá fama e movimenta a economia da pequena Abadiânia, intrigando ainda mais a classe médica tradicional.
Pouco se sabe sobre a vida terrena do espírito Dr. Fritz. A versão mais aceita diz que Adolf Fritz teria nascido na Alemanha no fim do século 19, formando-se médico e cuidando de soldados feridos durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Nesse cenário, teria acumulado experiência no atendimento de emergências e de prática cirúrgica utilizando os limitados recursos que o front de batalha oferecia. Após desencarnar (por causas desconhecidas), teria se manifestado por intermédio de vários médiuns brasileiros, como Zé Arigó, o baiano Edivaldo de Oliveira Silva, o pernambucano Edson Queiroz e, mais recentemente, o paulista Rubens Farias Jr.
Para explicar o fenômeno, alguns cientistas defendem a ideia de que o envolvimento emocional do paciente incentiva a produção de endorfinas no organismo – uma substância natural que inibe a sensação de dor –, enquanto outros dizem que o médium, inconscientemente, pode induzir transes hipnóticos nos pacientes durante sua performance, o que também evitaria a dor. Já quanto à cura em si, ela seria decorrente do efeito placebo, aquele em que a ilusão de ter sido medicado desendadeia uma reação psicológica positiva e esta, por sua vez, provoca uma melhora real no estado de saúde do paciente.