Deus existe? Os filósofos respondem

Publicado por Redação em 10/11/2010 às 13h49

Mas a coisa não é simples: enquanto alguns grandes nomes argumentam que sim, outros de igual importância clamam, com ênfase, que não. Descubra, a seguir, o que Nietzsche, Descartes, Karl Marx e Santo Anselmo dizem a respeito de Deus

Texto • Thiago Perin



Maior do que uma ideia

Para Anselmo da Cantuária (1033-1109), mais conhecido como Santo Anselmo, podemos deduzir a existência de Deus da mera ideia de Deus. O raciocínio dele é o seguinte: por definição, Deus é um ser tão grande, mas tão grande, que maior não pode ser concebido. Em segundo lugar, Deus pode ser concebido como mera ideia ou como realmente existindo. E existir é maior do que ser uma mera ideia. Portanto, como Deus é tão, tão grande, ele deve existir.

Esse é o chamado "argumento ontológico", um dos mais famosos pensamentos filosóficos sobre a possível existência de um ser divino.

Gaunilo, um monge do século 11, replicou que, da forma que foi construído, esse argumento permitiria provar que qualquer coisa perfeita deve existir. É possível pensar, por exemplo, em uma ilha perfeita, “tão excelente que melhor não pode ser concebida”. E, como seria menos excelente se não existisse, essa ilha deve, portanto, existir. Aí fica evidente como o argumento é falho, pois não se pode ter certeza da existência de algo só partindo da ideia de que esse algo é perfeito.

Mas Santo Anselmo estava ciente do problema e respondeu que o argumento ontológico funciona apenas para Deus. Isso porque a relação entre Deus e grandeza ou perfeição é única.

 

O poder é do homem

O pai do movimento comunista, Karl Marx (1818-1883), sempre foi um ateu radical. Para ele, a fé em Deus não passa de uma ilusão. “Urge, portanto, desmascarar esta ilusão a fim de restituir ao homem a dignidade perdida da sua interioridade infinita”, disse. Marx conclui que acreditar em Deus tira do homem a consciência de sua própria grandeza: “mais o homem coloca realidade em Deus e tanto menos resta de si mesmo”.

Por isso, é comum dizer que marxismo e ateísmo não podem ser dissociados, já que a própria consciência que o homem tem de si – o principal ponto da filosofia defendida por Marx – exclui completamente a possibilidade de Deus.

 

Supremas perfeições

O sueco René Descartes (1596-1650) propôs dois argumentos em prol da existência de Deus. O primeiro é uma versão do argumento ontológico de Santo Anselmo. Já o segundo, chamado de “argumento da marca impressa”, afirma que nossa ideia de um ser perfeito não pode ter sido produzida por nada menos perfeito do que o próprio Deus, o qual deve, portanto, tê-la implantado em nossas mentes, para nos permitir conhecer nosso criador e reconhecer que podemos chegar à verdade pelo uso de nossa razão.

Na obra Princípios da Filosofia, ele explica: “pela luz natural é evidente não só que, do nada, nada se faz, mas também que não se produz o que é mais perfeito pelo que é menos perfeito (...). Não pode haver em nós a ideia ou imagem de alguma coisa da qual não exista algures, seja em nós, seja fora de nós, algum arquétipo que contenha a coisa e todas as suas perfeições (...). E porque de modo nenhum encontramos em nós aquelas supremas perfeições cuja ideia possuímos, disso concluímos corretamente que elas existem, ou certamente existiram alguma vez, em algum ser diferente de nós, a saber, em Deus”.

Descartes apresenta como prova da existência divina, além disso, o espírito. Ele diz que como não podemos conservar a nós próprios vivos – ou seja, não podemos garantir a nossa existência –, mas apesar disso existimos, é porque alguém nos pode garantir essa existência. Esse alguém, portanto, é Deus.

 

"Deus está morto!"

A frase emblemática de Friedrich Nietzsche (1844-1900) é sempre lembrada quando o assunto é religião. Para Nietzsche, há vários indícios de que Deus não existe. O principal deles é que a simples existência do mal (crime, doenças, sofrimento etc.) no mundo nega a existência de um ser benevolente e todo-poderoso. Segundo o filósofo, a ideia de Deus poderia ser autocausada pelo fiel – de novo, uma ilusão. “Rogo-vos, meus irmãos, permanecei fiéis à terra, e não creiais naqueles que vos falam de esperanças de outros mundos”, escreveu.

“A humanidade moderna precisa enterrar Deus e seguir em frente”, escreve ele, que defende a valorização do mundo físico em que vivemos, "que é tudo o que existe". Nietzsche não deixa espaço para ambiguidade na interpretação de suas palavras: “não há Deus ao qual devamos ser fiéis. Logo, cada pessoa é exortada a permanecer fiel á terra”.