Filosofia nas telas do cinema

Publicado por Redação em 10/11/2010 às 13h23

Será que a vida imita a arte ou a arte imita a vida? Essa resposta a gente não têm, mas resolvemos analisar três filmes bem conhecidos sob um ponto de vista filosófico e não há dúvida que eles inspiram (e muito!) a reflexão

21 gramas

Texto • Thiago Perin

21 gramas (21 grams, EUA, 2003)



Qual é o sentido da vida? Há algum tipo de existência após a morte? Essas são duas das mais clássicas perguntas da filosofia, consideradas por muita gente tão irrespondíveis que chegam até mesmo a ser motivo de piada. Sem qualquer veia cômica, 21 gramas representa essas interrogações nas histórias de três pessoas cujas fortes conexões – um laço de casamento, um órgão doado, um acidente fatal – os forçam a questionar todos os conceitos relativos à existência humana.

Cristina (Naomi Watts) é uma mãe de família com histórico de álcool e entorpecentes; Paul (Sean Penn) é um professor infeliz e à beira da morte, que aguarda um transplante cardíaco; Jack (Benicio Del Toro) é um ex-presidiário perturbado que muda completamente os rumos das vidas dos três quando, em um acidente de carro, mata os filhos e o marido de Cristina. A tragédia dá a Paul o novo coração que ele tanto precisava e cria laços entre os personagens, que passam então a questionar a linha tênue entre vida e morte.

Com base em uma premissa quase metafísica – a de que, supostamente, todos perdemos exatos 21 gramas de massa corporal quando morremos –, as turbulências da trama obrigam os personagens a duvidarem do que já sabem, enveredando pelo caminho do pensar mais aprofundado. Será que a vida pode ser reduzida a uma medida métrica? Existe um plano divino, diferente deste em que vivemos? Há um legado duradouro para nossas ações em vida? Até que ponto somos capazes de influenciar o mundo e nossos semelhantes? Quanto se perde e quanto se ganha na morte?

Essa é a essência da filosofia: o questionamento. Dando vasão à primeira dúvida, por mais simples que essa seja, é quase inevitável mergulhar em um mar de muitas outras perguntas que precisam de resposta – não necessariamente em circunstâncias tão dramáticas quanto às vividas por Paul, Cristina e Jack, é claro. Como registrou Aristóteles, “todo homem, por natureza, deseja saber”. Agora, se no fim do filme os protagonistas alcançam ou não às respostas que tanto procuraram, cabe a você dizer.

Sociedade dos poetas mortos

Sociedade dos poetas mortos (Dead Poet’s Society, EUA, 1989)


 

Sociedade dos poetas mortos ilustra o conflito entre duas das mais famosas escolas do pensamento: o Realismo, que valoriza o que é objetivo, palpável, direito; e o Romantismo, de ideais mais poéticos e contemplativos. Essas duas linhas contrastantes são apresentadas aos estudantes da Welton Academy, um colégio preparatório só para garotos, regido por valores extremamente tradicionais e rígidos, tipicamente realistas.

Isso começa a mudar quando um professor substituto de Literatura chega à sala de aula com uma paixão imensa pelo ensino romântico, gênero que teve Arthur Schopenhauer como um de seus representantes – tido como pessimista, o filósofo colocava a emoção em destaque quando discorria sobre todas as coisas, vendo a existência como algo menos técnico e mais cheio de poesia.

No filme, John Keating (Robin Williams) dá início ao curso com um discurso fervoroso sobre a morte iminente de tudo o que vive, explicando aos alunos o caráter efêmero da vida e por que eles devem aproveitar cada momento ao máximo para que suas existências valham a pena – o conhecido “carpe diem”. As aulas continuam com incentivos a rasgar páginas dos livros teóricos, lições sobre poetas românticos como Thoreau e Lord Byron e exercícios ao ar livre, tudo para desenvolver uma perspectiva diferente nos jovens, que de início relutam em se adaptarem ao método pouco convencional do professor, mas acabam conquistados pela nova filosofia.

Dessa maneira, John Keating mostra que, ao lidar com nossas emoções mais profundas, despertamos a veia poética que dá à vida um sentido, uma razão. Refletir sobre o que pensamos ser verdadeiro nos ensina a fazer o mesmo com a opinião dos outros. Assim, nos tornamos mais cautelosos e menos propensos a simplesmente aceitar o que nos dizer e, sem depender do pensamento alheio, passamos a tomar nossas próprias decisões.

Na Welton Academy, o ensino rigoroso abafava as personalidades dos alunos e suas ideias próprias até a chegada do novo professor. A partir de então, eles mudam, ilustrando umas das máximas de Sócrates: “a filosofia liberta”.

Abril despedaçado

Abril despedaçado (Brasil/França/Suíça, 2001)


 

Abril despedaçado narra a rivalidade perpétua entre duas famílias, em uma região erma do nordeste brasileiro, onde a disputa pela terra justifica assassinatos cíclicos. O paralelo com a Grécia Antiga, efervescendo com as ideias dos primeiros grandes filósofos, já começa aí: lá, os crimes de sangue não eram julgados pelo Estado, e sim determinados pelos próprios clãs em conflito. Ou seja: instituía-se a justiça sangrenta do mais forte.

“O Estado viola o contrato social com as pessoas quando age com tirania”, escreveu o filósofo inglês John Locke. Quando ele não age, por outro lado, o contrato social (a relação entre cidadão e o Estado) também é violado. Até hoje, a ausência do Estado em questões do tipo incentiva a violência desmedida, especialmente em regiões mal-tratadas como o deserto nordestino, que dá cenário ao filme, onde um poder paralelo – no caso, a tradição – impõe suas próprias leis para a reparação do sangue derramado.

Quando Tonho (Rodrigo Santoro) vinga a morte do irmão mais velho, ele é o herói. Ao descobrir que é o próximo a morrer, no entanto, o jogo vira. Como nas tragédias gregas, é natural que ele seja imolado em nome do costume – no filme, assim que a mancha de sangue da camisa do rival morto amarelecer. É tudo parte de uma existência cíclica e previsível, fundamentada nos costumes e rituais sempre repetidos.

“O homem nasce livre, mas está acorrentado em toda parte”, escreveu o filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau. Se o novo não tem espaço para nascer, os ciclos, muitas vezes negativos, se perpetuam. A criação, por outro lado, destrói a tradição e concede a verdadeira liberdade para o ser humano.