O fim dos cavaleiros templários

Publicado por Redação em 09/12/2010 às 17h34

Conheça os desdobramentos que marcaram o fim da história dos templários e confira um trecho da bula em que o papa Clemente V decretou o encerramento das atividades da Ordem

Eles não foram felizes para sempre

Texto • Redação

Pouco menos de dois séculos. Esse foi o tempo necessário para que a Ordem do Templo se transformasse em uma das maiores redes de influência da Europa. Perto do ano 1300, a organização funcionava como uma espécie de multinacional medieval, que envolvia bancos, transportadoras e uma série de outros serviços ligados à administração, finanças e comércio.

Tal sucesso se deveu a dois fatores principais: ao mesmo tempo em que tornavam suas vitórias e seu idealismo conhecidos, passaram a receber um grande número de doações em dinheiro, terras ou propriedades. Em sua maior parte, as ofertas vinham de nobres e soberanos que, guiados pelo misticismo da época, acreditavam que com esse ato expiariam seus pecados e ganhariam a salvação no Reino dos Céus.

Logo, castelos, terrenos, moinhos, aldeias e outros bens faziam parte da Ordem. Com isenção de impostos, os templários sabiam como fazê-los render: as terras e propriedades eram arrendadas e geravam ainda mais dinheiro. Dessa forma, o sucesso dos empreendimentos parecia ir de vento em popa, ainda que os princípios originais, que proibia os cavaleiros de ostentar qualquer tipo de riqueza, há muito já tivesse sido distorcido.

O começo do fim

O começo do fim

Enquanto o sucesso financeiro dos cavaleiros aumentava dia a dia, o mesmo não se podia dizer a respeito das suas ações militares, já que cada vez mais amargavam derrotas contra o exército dos muçulmanos. À época, já eram tidos por toda a sociedade como ricos, arrogantes e egoístas, pois aparentemente serviam apenas aos seus próprios interesses e não aos dos cristãos no Oriente Médio.  

Com a reputação abalada, os templários lutavam para se reerguer quando caíram nas garras do poderoso Rei Felipe, o Belo, da França, que decidiu se apoderar da fortuna da Ordem. Determinado a impor sua autoridade sobre todo o país, o rei via nos Templários um verdadeiro entrave ao seu objetivo, afinal, por pertencerem a uma ordem religiosa, só respondiam ao papa e não ao monarca. Além disso, a aquisição de todas as posses da Ordem iria de encontro às necessidades da coroa francesa, que passava por maus bocados financeiros. Aliado ao papa Clemente V, o soberano tramou uma conspiração para acusar os cavaleiros de hereges, assassinos e adoradores do Diabo.

Em 1307, todos os cavaleiros que estavam em território francês foram investigados e presos por ordem do papa que, embora não aprovasse integralmente as ações de Felipe, temia perder o apoio do rei. Em pouco menos de cinco anos, a publicação da bula papal Vox in Excelso viria a decretar o fim da Ordem em definitivo. Ao final de um processo cheio de irregularidades, os cavaleiros do Templo foram queimados vivos em praça pública, e seus bens confiscados pelo rei francês. Jacques De Molay, o último grão-mestre dos templários, foi um dos quase 500 guerreiros levados à fogueira em Paris. Acabava, com ele, todo o esplendor e glória da linhagem original dos cavaleiros templários.

Transcorridos alguns séculos, ainda hoje, muitos especialistas acreditam que a perseguição implacável do rei sobre a Ordem nada teve a ver com questões religiosas. Para confirmar essa teoria, recentemente, um documento de 700 anos revelado pela Igreja Católica aponta que, ao fim do inquérito realizado para investigar as ações e a vida dos Templários, o Papa Clemente V julgou e absolveu-os da acusação de heresia, embora tenha os condenado pela imoralidade – situação a qual pretendia reverter a partir de uma reforma na organização. Entretanto, subjugado às vontades do monarca, não teria conseguido evitar o fim trágico.  

O último suspiro

O último suspiro

No dia 22 de março de 1312, em Vienne, França, o papa Clemente V publicou a bula Vox in Excelso para destruir os Cavaleiros Templários. Os extratos da bula publicados a seguir revelam os crimes imputados aos Templários e as ações tomadas por Clemente para suprimir a Ordem.
 

“Pouco tempo atrás, à época de nossa eleição como sumo pontífice e antes de virmos a Lyon para nossa coroação, e depois, tanto lá como em outros lugares, recebemos notificações secretas contra o mestre, preceptores e outros irmãos da Ordem dos Cavaleiros Templários de Jerusalém e, também, contra a ordem em si. Tais homens foram alocados em terras do ultramar para a defesa do patrimônio de Nosso Senhor Jesus Cristo; e como guerreiros especiais da fé católica e defensores da Terra Santa pareciam os grandes responsáveis pela estabilidade da mencionada região. Por esse motivo, a santa igreja romana honrou tais irmãos e a ordem com seu apoio especial, armando-os com o símbolo da cruz contra os inimigos de Cristo... Portanto, foi contra o próprio Senhor Jesus Cristo que eles praticaram o ímpio pecado da apostasia, o abominável vício da idolatria, o crime mortal dos sodomitas e diversas heresias. Ainda assim, não era esperado nem parecia crível que homens tão devotos, que muitas vezes foram extraordinários a ponto de derramar o próprio sangue por Cristo e repetidas vezes foram vistos expor suas pessoas a perigos mortais, que ainda com maior freqüência foram vistos dando grandes sinais de devoção tanto em termos de adoração divina, no jejum e em outras práticas, seriam tão negligentes de sua salvação ao cometer tais crimes.

Então veio a intervenção de nosso dileto filho em Cristo, Filipe, o ilustre rei da França. Os mesmos crimes haviam sido relatados a ele. Filipe não agiu motivado pela cobiça. Ardente no zelo pela fé ortodoxa, ele seguiu os bem marcados passos de seus ancestrais. Ele extraiu o máximo de informação permitida por lei. A seguir, para nos lançar mais luz sobre o tema, Filipe nos enviou valiosas informações por meio de enviados e cartas. Crescia o escândalo contra os Templários em si e sua ordem no que tange aos crimes já mencionados.

Houve até um dos cavaleiros, um homem de sangue nobre e conhecida reputação na ordem, que testemunhou secretamente sob juramento diante de nossa presença, que, quando de sua admissão, o cavaleiro que o recebeu o instou a negar a Cristo, o que ele fez, na presença de outros cavaleiros do Templo; ademais, ele cuspiu na cruz estendida para ele por este cavaleiro que o admitira. Ele também disse ter visto o grão-mestre, que ainda está vivo, admitir certo cavaleiro num capítulo da ordem no ultramar. A admissão se deu da mesma maneira, nomeadamente com a negação de Cristo e o cuspe na cruz, na presença de cerca de 200 irmãos da ordem. A testemunha ainda afirmou ter ouvido dizerem que aquele era o modo costumeiro de admitir novos membros: instado pela pessoa que admite a profissão ou por seu representante, o neófito nega Jesus Cristo e, para insultar o Cristo crucificado, cospe na cruz apresentada a ele, e os dois cometiam outros atos ilegais contrários à moral cristã, como a própria testemunha confessou em nossa presença.

Estávamos moralmente obrigados por nosso ofício a prestar atenção ao rumor de tão graves e repetidas acusações... Como nós, indignamente, representamos Cristo na Terra, consideramos que deveríamos, seguindo seus passos, fazer uma investigação. Convocamos à nossa presença muitos dos preceptores, padres, cavaleiros e outros irmãos da ordem que eram de sabida reputação. Sob juramento, foram conjurados com insistência pelo Pai, o Filho e o Espírito Santo; exigimos, em virtude da santa obediência, invocando o julgamento divino com a ameaça da danação eterna, que pura e simplesmente contassem a verdade. Salientamos então a eles que se encontravam em local seguro e adequado onde nada tinham a temer apesar das confissões que haviam feito diante de outros. Exprimimos nosso desejo que tais confissões não lhes causariam prejuízos. Deste modo procedemos nosso interrogatório e examinamos 72, muitos dos nossos irmãos estavam presentes e obedeciam cuidadosamente aos procedimentos. Em nossa presença, as confissões foram anotadas pelo notário e registradas como documentos autênticos...

A seguir, buscando fazer uma investigação pessoal (...) convocamos o grão-mestre, o visitador da França e os preceptores-chefe de Ultramar, Normandia, Aquitânia e Poitou a comparecem diante de nós enquanto estávamos em Poitiers...

Tomando por base essas confissões, depoimentos escritos e relatórios descobrimos que o mestre, o visitador e os preceptores de Ultramar, Normandia, Aquitânia e Poitou muitas vezes cometeram ofensas graves, embora alguns tenham transgredido com menos freqüência que outros. Nós consideramos que esses crimes medonhos não poderiam nem deveriam ficar impunes sem insultar ao Deus todo-poderoso e a todos os católicos. Aconselhados por nossos irmãos, decidimos instaurar uma averiguação dos acima citados crimes e transgressões. Assim que foram concluídas e enviadas para nosso exame, as investigações foram lidas e examinadas com cuidado, algumas por nós mesmos e outras por nossos irmãos, cardeais da santa igreja romana e outros ainda por homens de grande saber, tementes a Deus, prudentes e confiáveis...

Mais tarde, viemos a Vienne onde já encontravam reunidos vários patriarcas, arcebispos, bispos escolhidos, abades recolhidos e não recolhidos, outros prelados da igreja...

Havia duas opiniões: alguns diziam que a sentença deveria ser pronunciada imediatamente, condenando a ordem por seus alegados crimes; já outros objetavam que, tendo por base os procedimentos seguidos até então, a sentença contra a ordem não podia ser simplesmente enunciada. Após longa e ponderada deliberação, tendo apenas Deus em nossa mente e o bem da Terra Santa, sem tomar partido por ninguém, optamos por proceder pelo caminho da providência e da ordenação, dessa forma o escândalo seria removido, os perigos evitados e a propriedade salva para ajuda da Terra Santa...

Portanto, com o coração pesaroso, não pela sentença final, mas pela providência e ordenação apostólicas, com a aprovação do sagrado conselho, nós extinguimos a ordem dos Templários, suas regras, hábito e nome, por meio de um édito perpétuo e inviolável, e proibimos que de agora em diante alguém seja admitido na ordem, receba ou vista seu hábito ou pretenda se comportar como um templário. Quem agir de outra forma incorrerá em excomunhão. Ademais, reservamos as pessoas e propriedades à nossa disposição e da Sé Apostólica...”.